Entrevista com o dr. Steve Hardy

HardyRevista Reflexão TeológicaSabemos que o preparo formal é necessário a vocacionados para o ministério sagrado. O senhor poderia nos dar algumas razões que comprovam tal fato?

Steve Hardy – É uma triste realidade que 80% a 90% dos líderes de igrejas locais não têm quase nada de preparo para os seus ministérios. Não obstante, a Bíblia não exige diplomas ou certificados para alguém ser líder. É claro que todas estas pessoas devem ter alicerces firmes e maturidade na fé, além dum bom preparo para poder usar os dons que Deus lhes deu. Em princípio, uma pessoa pode adquirir isso por ser mentoreado por pastores ou outros crentes experimentados ou por um aprendiz formal (tipo de estágio prolongado), dentro duma igreja, para perceber como exercer os vários ministérios da Igreja. Na prática, porém, são poucos os líderes que investem em aprendizes. Uma vez que a própria sociedade valoriza qualificações e credenciais, escolas bíblicas e teológicas têm surgido como lugares onde eficientemente as pessoas com uma chamada e dons espirituais podem ser equipadas para o ministério. Nas escolas há pessoas com experiência e treinamento especial no preparo de novos obreiros. Estudar junto com colegas que vão fazer ministérios semelhantes enriquece o processo de aprendizagem.

Revista Reflexão TeológicaUma escola de educação teológica deve se empenhar pela qualidade dos seus serviços. Que marcaria o perfil de qualidade numa instituição de ensino teológico?

Steve Hardy – Qualidade no ensino teológico fica visível nos ex-alunos. Se eles vão bem no ministério e na vida, algo de bom aconteceu no preparo. Eles sabem disso e são gratos. O melhor recurso de um programa de qualidade está nos professores e no staff, que não somente devem ser competentes, mas com vidas exemplares que ilustram o que estão ensinando. O currículo dum programa de qualidade não só apresenta um lado acadêmico coerente e contextual, mas coopera com igrejas locais, ajudando os alunos a dominar coisas práticas e dando-lhes ênfase ao trabalho consciente, para o crescimento a amadurecimento de cada um deles.

 

Revista Reflexão TeológicaQue conselho o senhor daria a alguém que percebe sua vocação ou chamada para o ministério?

Steve Hardy – Tente fazer algo deste ministério. Se fazer isso for do Senhor, haverá alegria no fazer e confirmação dos colegas e companheiros sobre seus dons e habilidades. Não adiante investir em aulas antes de ter a certeza de que Deus lhe deu jeito para realizar isso.

 

Revista Reflexão TeológicaDe que maneira a igreja local deve apoiar o membro vocacionado que foi enviado ao preparo formal? Qual é o papel do pastor neste processo?

Steve Hardy – A nossa formação principal deve acontecer dentro de uma igreja local. É lá que firmamos os alicerces da nossa fé, aprendemos a viver em comunidade e percebemos algo dos dons que Deus nos deu. Cabe à igreja equipar todos os seus membros, dando-lhes uma visão ampla do trabalho do Reino de Deus. Se alguém for chamado por Deus a um trabalho especial ou à liderança da igreja local, esta deve servir de workshop para o futuro do obreiro, ajudando-o a entender o que ela é e de que modo ela funciona. A liderança da igreja (principalmente, o pastor) deve confirmar a chamada de alguém para o ministério e investir no preparo do indivíduo. Isso inclui ajuda financeira. Deve acompanhar o crescimento do seu filho, dando-lhe oportunidades de pôr em prática o que está aprendendo, talvez até servindo de lugar de estágio.

 

Revista Reflexão Teológica Como o irmão avalia a Educação Teológica no Brasil?

Steve Hardy – Que eu saiba, há cerca de quinhentas escolas bíblicas no Brasil. Apesar do número elevado, a maioria dos pastores de igrejas evangélicas nunca se prepararam formalmente para os seus ministérios. Algo não está andando bem. Pode até haver igrejas que simplesmente acham que estudo teológico é caro demais ou irrelevante demais para as realidades do contexto brasileiro. Talvez estejamos utilizando muito metodologias tradicionais de estudo para ela ser acessível a todos. Conheço escolas excelentes no Brasil, mas fico inconformado com a falta de cooperação e comunicação entre elas. Tantos programas vivem só dentro do seu próprio círculo, sem querer aprender do sucesso ou das falhas dos outros. Creio que as escolas teológicas tenham que ouvir e sentir melhor as necessidades das igrejas evangélicas do Brasil.

 

Revista Reflexão TeológicaNo Brasil, cresce a cada dia o número de novos seminários denominacionais, outros estão ligados a igrejas independentes e comunidades; alguns sem uma boa estrutura, outros com um teologia voltada para o modelo eclesiástico. Em seu ponto de vista, isso contribui para melhorar a proclamação do Evangelho e a edificação da Igreja? Isso é bom? De que maneira? Isso tem contribuído para impactar a sociedade?

Steve Hardy – De um certo lado, acho razoável quando denominações desenvolvem programas de formação para os seus próprios obreiros. Mas a maioria destes programas são pequenos e de pouca qualidade. Então concluo que, de forma geral, a independência denominacional não ajuda. Creio que faríamos melhor não somente repartindo os nossos recursos (professores, prédios ou livros), mas também repartindo idéias e oferecendo encorajamento e respeito de uns aos outros. Sendo programas educacionais pequenos e mal desenvolvidos, o nosso impacto é mesmo pequeno. Isso não é uma questão de ter números maiores; porém, se funcionássemos mais como a família do Deus da Igreja global, teríamos um impacto muito maior.

 

Revista Reflexão TeológicaComo educador o senhor sabe que a aprendizagem se consolida com a prática. Que porcentagem da grade curricular deveria ser destinada ao estágio?

Steve Hardy – Toda matéria oferecida num seminário deve focar a transformação de vidas e a obediência. Mais ou menos 50% do Novo Testamento são aplicações. Pôr em prática certas idéias deve ser o objetivo de todo currículo e não algo deixado principalmente para um período especial de estágio. Os alunos devem estagiar todas as semanas. Uma parte disso é a prática de ministério e de serviço aos outros, mas uma outra parte é a prática individual de hábitos e atitudes novas de espiritualidade individual. Estas duas coisas podem somar até 50% do que “ensinamos” no programa teológico. Também creio no valor de estágios supervisionados, antes da formatura de alguém. Isto é a experiência prática de evangelismo, de plantar igrejas novas, de trabalho transcultural etc. Isto pode se incluir durante as férias ou durante um semestre ou um ano inteiro. Há mais valor neste tipo de estágio quando há mentores e reflexão crítica da própria pessoa. Geralmente, quem volta às “aulas” depois de um estágio assim, vem com muitas perguntas e uma sede enorme para aprender o que não sabia antes.

 

Revista Reflexão TeológicaAnte os cursos teológicos validados pelo governo (MEC), o senhor vê algum perigo da profissionalização do teólogo?

Steve Hardy – Entendo que o governo tem interesse em proteger o povo de pessoas que se chamam pastores mas que não o são. Porém, não acho que a melhor solução disso é credenciar somente pessoas com cursos reconhecidos para produzir pastores. Ser pastor é um dom de Deus. Escolas teológicas podem ajudar pastores que têm o dom de pastor a pastorear melhor. Nenhuma escola em si pode produzir pastores. Se é esta a finalidade das novas regras de validação, então sim, vejo problemas. Contudo, se reconhecimento oficial é simplesmente uma maneira de indicar qualidade no ensino, então não vejo problema nenhum. Devemos recordar que o reconhecimento ou credenciamento mais importante para um programa teológico é o que é feito por quem se beneficia do programa; mas, se estamos equipando os nossos alunos na formação do caráter, conhecimento e habilidades para servir bem à Igreja de Deus, é provável que estamos fazendo a tarefa de ensino com excelência. Se um governo quer também reconhecer isso, tudo bem! Mas uma escola não deve vender a sua alma para receber um “reconhecimento” de qualidade, se de fato não existe qualidade no ensino. É possível fazer isso ao se contratarem professores com vidas irregulares ou sem habilidades de ministérios, somente porque têm credenciais acadêmicas ou porque colocamos matérias no currículo, as quais têm pouco a ver com a necessidade das igrejas. O perigo nisso não é um problema de reconhecimento oficial, pois, se o nosso programa não prepara os nossos alunos para ministério e vida, estamos a perder dinheiro e tempo.

Revista Reflexão Teológica do Betel Brasileiro. Entrevista realizada com o dr. Steve Hardy, consultor para a Educação Teológica e membro da missão Servindo em Missões (SIM).

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